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A vida é da cor que pintamos

12/10/2011
MAM - Salvador - Solar do Unhão 1 by felizberto - Emmanuel Avetta
MAM – Salvador – Solar do Unhão 1, a photo by felizberto – Emmanuel Avetta on Flickr.

Desci do taxi, atravessei a rua e entrei no parque do museu. O som barulhento dos carros e os gritos da cidade ficaram atrás de mim. Na minha frente o vento e o mar estavam chamando a minha atenção, levando-me de vez para meu mundo de desejos, sentimentos, lembranças e amor proibido. Comecei a descer a ladeira que me levou no meu íntimo, sozinho, olhando para o mar, ouvindo o grito da minha confusão que pedia para sair, como uma confissão levantada pelo ruído das ondas que quebravam nas pedras do cais.

Nossa conversa trouxe a liberdade do vôo da gaivota que deslizava no horizonte na minha frente. O som da sua voz, junto ao ruído das ondas, formava uma sinfonia encantadora onde a natureza se fundia com os meus desejos. Desejos que iam e voltavam no balanço das ondas, ninados dá ilusão desta falsa realidade. A emoção crescia, o coração palpitava e o mundo, longe de mim, permanecia em silencio sorrindo carinhosamente para nós.

Será que os peixes irão se importar de nós? Será que a lagartixa vai reparar que estou voando? Será que o sol irá se esconder envergonhado de nós? O mar mandará parar o próprio movimento para nós julgar?

O peso da nossa consciência não é mais forte do que o amor, não manda nas nossas emoções e não mexe nas nossas realidades.

O sol se refletia na superfície da água, como a enfatizar este oceano que é essa distancia, que é o contexto no qual respiramos e nos alimentamos. Nuvens pretas carregavam chuva que só a minha pele sentia descer, dos meus olhos. A luz do sol que filtrava de vez em quando criava causticas atrás do meu copo que queimavam o papel que usei para escrever um pedaço do nosso presente.

Sentado, nas tabuas de madeira do píer, olhando o mar se agitando debaixo delas, um prego, encaixado entre uma tabua e a outra, me parecia suspenso entre a vida e a morte. Qual é a sorte dele? Ficar preso nas tabuas ou cair no mar? Olhei o prego, o liberei, observei as marcas do tempo que nele ficaram e o coloquei novamente no lugar, certo que não fosse eu quem podia decidir por ele.

A silhouette do molhe, dos navios que dirigiam-se à ilha de Itaparica, dos lampiões e das nuvens, me forçavam a uma visão monocromática do que estava vivendo, quase como se não tivesse escolha.

Olhava o mar, sentia o som da solidão mergulhar nos sons do mar e do vento, minhas lembranças se mexiam e caiam como folhas na praia na minha frente. A vontade de chorar me devorou. Me virei, deixando o oceano às minhas costas. Os meus olhos cruzaram logo os sinais que o fato nos apresenta; uma placa indicava o titulo de uma escultura: “A vida é da cor que pintamos” *.

Emmanuel

* nome da escultura de Chico Liberato no jardim do MAM de Salvador.